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Tempo de ser humano

Segundo o psicanalista Jean-Pierre Lebrun, não nascemos humanos, nós nos tornamos humanos. É preciso aprender a lidar com o sofrimento para sermos plenamente humanos. Há alguns meses ouvi uma palestra maravilhosa do filósofo Pondé, onde ele falou sobre a difícil relação das pessoas com a verdade. Saber lidar com ela tem a ver com aceitar que o sofrimento faz parte de ser humano.

O problema é que lidar com isso parece não combinar com nosso objetivo maior, que é ser feliz. Enquanto somos crianças, achamos que o mundo é justo, que existem coisas injustas, que existe um bom e um mau e crescemos tentando encaixar a vida e as pessoas nesses termos.

“Ouça querida – disse-lhe Otávia certa vez – não fique assim com essa mentalidade de donzela folhetinesca, não separe com tanta precisão os heróis dos vilões, cada qual de um lado, tudo muito bonitinho como nas experiências de química. Não há gente completamente boa nem gente completamente má, está tudo misturado e a separação é impossível.”

Lygia Fagundes Telles em “Ciranda de Pedra”

A energia que gastamos para julgar a vida seria muito mais útil para aceitá-la. Julgar não altera nem justifica os fatos. Eles não são bons, nem maus, eles simplesmente são. O sofrimento também não chega a ser justo ou injusto. Ele apenas faz parte do preço que pagamos pelas coisas boas da vida. E, apesar das frustrações, a vida também é repleta de surpresas.

“Deve ser boa a vida de peixe de aquário, murmurei.

- Deve ser fácil. Aí ficam eles dia e noite, sem se preocupar com nada, há sempre alguém para lhes dar de comer, trocar a água… Uma vida fácil, sem dúvida. Mas não boa. Não se esqueça de que eles vivem dentro de um palmo de água quando há um mar lá adiante.

- No mar seriam devorados por um peixe maior, mãezinha.

- Mas pelo menos lutariam. E nesse aquário não há luta, filha. Nesse aquário não há vida.”

Lygia Fagundes Telles em “Verão no Aquário”

Mas ninguém duvida que é preciso coragem. Coragem para ser humano o suficiente para mergulhar de cabeça na vida que, segundo Bauman, está cada vez mais líquida. E, na minha opinião, muito mais estimulante.

Bárbara Bufrem

(Fontes imagens: 1 e 2 )

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terça-feira, fevereiro 2nd, 2010 Sem categoria 3 Comentários